Sábado, 22 de Abril de 2006

O meu primeiro 25 de Abril em Portugal

Acabadinha de chegar de terras gaulesas, saidinha de um colégio de freiras só para meninas onde estive interna durante vários anos, e habituada que estava a ouvir a avó materna dizer que os comunistas comiam crianças, encarei o meu primeiro 25 de Abril em Portugal como o grito do Ipiranga não sem antes me munir de gás pimenta não fossem as historias ouvidas na infância serem verdadeiras.

Tinha marcado encontro com o meu amigo Artur, primeiro amigo rapaz que tive em toda a vida e que usava uma poupa tão grande, mas tão grande que poderia perfeitamente servir de pára-vento na praia da Figueira (desconfio até que, passado o susto inicial, foi esse o propósito que me fez aproximar dele).

Chegamos a Lisboa mesmo a tempo do desfile. Misturamo-nos no amontoado de gentes que gritava palavras de ordem e brandia cartazes. Lembro de ver tudo vermelho: Flores, camisas, faixas, partidos políticos ...

Passado pouco tempo, já o Artur e eu nos tínhamos juntado a um grupo da JCP que rodava ganzas a um ritmo infernal.

Nunca tinha fumado nada na vida, e escusado será dizer que comecei nesse 25 de Abril.

Como fumar deixava me a boca seca, comecei nesse dia também a beber cerveja.

A malta do PCP viu em mim uma jovem católica de direita que precisava urgentemente de ser informada acerca do que de facto tinha sido o 25 de Abril, o que era o comunismo e quais eram as posições do partido relativamente ás mais variadas questões politicas.

De certa forma, nesse dia, iluminou-se-me o cérebro para uma nova realidade . Vi  de facto "a Luz", mas foi por pouco tempo: o meu organismo virgem e pouco habituado a estupefacientes não aguentou o desfile inteiro, e acabei rapidamente com a cabeça enfiada numa retrete a regurgitar todas as palavras de ordem que até ali tinha aprendido.

Conclusão, acabei por ser levada a braços para a casa de um dos moços do PCP que lá estava, dormi que nem uma lontra o dia todo, dizem que espumei pela boca e que queria à força usar o gás pimenta sobre quem se aproximasse.

O Artur e eu acabamos por nos escapulir durante a noite não sem antes deixar um bilhete de agradecimento aos nossos amigos rojitos , e acabamos por dormir em frente à estação de Sta . Apolónia Á espera que a dita abrisse portas para apanharmos o primeiro comboio para o norte.

 

Desde desse dia que não falho um desfile nem uma festa do avante.

publicado por postitlilas às 14:16
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2 comentários:
De Helder a 22 de Abril de 2006 às 15:25
Experiência marcante:) Festa do Avante é imperdivel
De parislasvegas a 24 de Abril de 2006 às 10:05
Estou a ver que iniciaste a tua politização da melhor maneira!Essa da cabeça dentro da retrete também me aconteceu muitas vezes ao longo dos anos de "exploração ideológica". É que isto de estudar política não é fácil - requer muitos treinos e muita dedicação...

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